“Uma casa de grade vermelha meio escura”, disse Alfredo Camilo no nosso primeiro encontro reforçou a que aquela residência de ar interiorano, construída no declínio do terreno, bem ao centro da cidade de Delta, seria de fato seu lar.
Após algumas voltas à procura do numero 85, constatava-se que a casa procurada não continha número aparentemente. Apenas o movimento dos cachorros na varanda da casa, fez com Camilo apontasse na porta da sala, e me convida-se para entrar. Preocupado com a memória do senhor de 85 anos, (completados um dia antes), me apresentei novamente.
- Oi seu Camilo, sou o Raphael que te liguei mais cedo, tudo bem?
Um olhar simplório, como se tudo aquilo fosse natural, muito diferente de todos os olhares em abordagens anteriores, me surpreendeu e levantou a moral, que por hora estava baixa com medo de estar perturbando o dia daquele senhor.
- Lembro sim! Vem, vamos entrar.
O alvoroço dos cachorros foi rapidamente interrompido por uma ordem do dono, logo a frente a porta principal, era a mesma para adentrar a sala. Sem nenhum luxo aparente, nos sentamos, uma imagem de Santo Expedito ilustrava a parede, à frente logo na virada para o interior um armarinho, com alguns objetos, de certo lembranças de outros locais, porta retratos, e um forro com bordas de crochê.
Alfredo Camilo em nosso primeiro encontro se apresentou como cidadão Conquistense, e que viera aos 40 anos para Delta. Casado com Maria Zago, Camilo teve duas filhas, Alucia Camilo e Maria Luiza Camilo, ambas formadas em letras, uma residente em Igarapava, e outra em Delta mesmo. A segunda que mora na cidade é secretária de Educação e leciona na Escola Municipal “Ana de Castro Cançado”.
Brasileiro, de 85 anos, nascido em 19 de Abril de 1924, em uma região rural entre Sacramento e Delta, próximo ao Rio Grande, mudou-se para Delta em 64, por visão de futuro, “naquele tempo nos trabalhávamos era na roça, na lavoura, com gado, não tínhamos estudos, mas meus filhos eu queria que eles estudassem, foi para isso que eu vim pra delta”, até então, uma vila sem nenhum prospecto que contava com apenas dois segmentos geradores de emprego, a uma cerâmica que fazia telhas e tijolos, e as fazendas da redondeza.
Estudar para Seu Camilo foi “uma sorte”, tendo a oportunidade de ter aula com uma professora que veio a região lecionar para os jovens em uma fazenda vizinha ao dos seus pais, fez com que a classe de 8 pessoas nos quais 3 eram seus irmãos, aprendesse ao menos o ler e escrever. “Mas como a vida na roça não é fácil né? Logo a professora contratada pelo dono da fazendo foi embora, não conseguiu se adaptar”, o que não sabia era que posteriormente esse breve contato com a educação estudantil, faria sua vida vir de encontro a Delta.
A mão inquieta á alizar o forro da mesa era o acompanhamento das histórias que convergiam uma com as outras, passado com futuro, família com cidade, política com amizades. Outra hora em uma ocasião que não lhe falhou a memória, foi a que quando ainda criança viverá na casa de sua mãe, durante o período das batalhas guerrilha entre Minas e São Paulo, na Revolução Constitucionalista de 1932. Naquele ano de guerra interestadual, a região de Delta e Sacramento foi altamente assediada pelo seu ponto estratégico, em meio à disputa.
Na ocasião, a mãe preocupada ao espreitar uma caminhonete distante chegando à casa dos Camilos, correu e escondeu seus filhos.
- Vamos esconde dentro do baú, se não eles te pegam.
Lembrava Camilo com um farto sorriso, na época à preocupação com os então “combatentes” era muita, pois os mesmo se apoiavam nas propriedades a procura de abrigo ou então para “ganhar um porco ou uma galinha”. Além das pequenas prendas que necessitavam para manter as tropas, novos combatentes sempre eram recrutados pelas polícias da época, que por hora eram a força militar dos combates.
Ao passar dos anos Camilo cresceu, em conquista conheceu Maria Zago, com que casaria e construiria família, morando na fazenda, Alfredo Camilo, reconhece então a necessidade de dar estudos a suas pequenas filhas que já estavam em idade de estudar. Sem quase nenhuma opção na época, decidiu se mudar para a cidade, que na época era apenas uma vila, chamada Delta.
Poucas casas, muita precariedade. Uma venda “Na época era assim que chamavam os armazéns”, era tudo que precisavam para abastecer a cidade, em anexo havia então o primeiro posto de gasolina da cidade. No local, apenas um gerador a diesel se encarregava de gerar energia, e segundo Camilo somente por volta de 1970, 72, que por pedido da população é que passou a comprar energia da cidade vizinha, já no estado paulista, Igarapava.
Dotado de uma terra fértil, a cidade de Delta sempre esteve rodeada por propriedades rurais, em horas voltadas a plantações, em outras a pecuária. Porem o progresso nunca havia chegado, e a cidade se fazia distante de qualquer política publica que podesse agregar fortalecimento econômico e melhoria na qualidade de vida. A frente de todos esses problemas, e como um dos pioneiros na vila que até então possui cerca de 250 pessoas, Alfredo Camilo e mais cinco senhores na época de 1982, se juntam e fundam a Associação de Moradores de Delta. A inicio o intuito era construir uma representação que poderia manter posicionamento políticos perante as lideranças regionais, que na época eram as de Uberaba.
Nomes como Wagner do Nascimento e Eurípides Craide, são lembrados nas buscas por recursos para a cidade. Mas nada mudaria tanto com a vida da cidade quanto a instalação da Usina Delta que se instalaria posteriormente no Ano de 1992.